“Se você contar seus segredos ao vento, não culpe o vento por revelá-los às árvores”

19 de Novembro de 2009 @ 13:34 por SPBarra

Assisti ontem a uma entrevista linda da Marília Gabriela com o ator Rodrigo Lombardi. Daí ele trouxe esse ditado indiano, que eu aqui compartilho com todos. Que tal?

“Se você contar seus segredos ao vento,
não culpe o vento por revelá-los às árvores”.

ainda sobre a palestra: Espiritualidade e Psicanálise

17 de Novembro de 2009 @ 10:37 por SPBarra

Gostei muito do texto da Renata sobre a palestra Espiritualidade e Psicanálise e aproveito para acrescentar alguns comentários. O encontro na Travessa - promovido pela Sociedade de Psicanálise da Barra - de fato tocou em questões intrigantes, e as duas abordagens em pauta – a prática budista e a psicanálise - foram consideradas de forma brilhante, com o respeito e fascínio que merecem. Maria Lucia Pilla expôs uma visão corajosa e aberta da psicanálise, tocando em temas como os limites da nossa tão preciosa racionalidade, sobre o papel do analista e de todo o seu repertório de vivências e crenças pessoais na prática psicanalítica, sendo o instrumento central de trabalho do psicanalista a sua própria mente: consciente e inconsciente. Pilla compartilhou com a platéia suas experiências pessoais de tensão e integração entre a psicanálise e a espiritualidade, falou sobre religiosidade e sobre o importante papel do ego em nosso funcionamento psíquico: como interlocutor fundamental entre nossos desejos e as demandas externas, o ego nos traz também perigosas armadilhas, uma ilusão de poder e controle absoluto.

Foi um ‘encontro feliz’, pegando emprestada a expressão usada por Álcio Braz, onde uma experiência verdadeira de troca ocorreu: Álcio conduziu a platéia em um relaxamento, convocando-nos a tomar consciência de nossa respiração, nosso corpo, nossos pesos e contrapesos. Entramos assim em uma sintonia compartilhada, estávamos todos ali, presentes de corpo e alma naquele momento (como não é lá tão comum hoje em dia). Assim trocamos idéias, dúvidas e depoimentos. Tenho a impressão de que muito foi trocado nesse encontro. O tema era de interesse geral: como a Renata bem colocou, um elemento central que une a psicanálise, a espiritualidade e, acredito, todos da platéia, é a angústia, dor psíquica, ou a dor total (existencial) de que nos falou Álcio - espécie de dor abstrata tão familiar a todos os seres humanos. Ponto crucial aqui é o desamparo da condição humano, especialmente em tempos de ‘ilusões perdidas’: de um jeito ou de outro, devemos aprender a viver com nossa finitude, nossa dependência do outro, nossa limitação e impotência frente aos mistérios da vida. Como colocou Álcio, a vida humana é um estado constante de desajuste, e transitar nesse desequilíbrio não é tarefa das mais simples. Por isso estávamos ali, abertos para ouvir e falar, em primeira mão, sobre nossa condição humana. De forma humilde e verdadeira, a experiência espiritual foi abordada de maneira lúcida e clara: o grande milagre, falava Álcio, não é andar sobre a água, mas sim andar aqui no chão mesmo, sustentando o peso de existir, o próprio peso, vivendo cada instante da vida, admitindo a realidade, sem idealizações.

Foi um encontro pleno, longo e agradável. Pleno de idéias interessantes, de trocas pessoais, e pleno de gente também. Falou-se de religião e religiosidade, de efeito placebo, do papel dos remédios na psiquiatria, de milagres e experiências extra-sensoriais, da intuição, da empatia, da captação inconsciente. Inconsciente para Freud, para Jung, inconsciente coletivo. Falou-se muito, e a sensação que se tinha é de que participaram todos, falando e ouvindo, plenamente presentes naqueles preciosos instantes.

Fernanda Aranha

O caos reina: o amor e o horror no último filme de Lars Von Trier

17 de Novembro de 2009 @ 10:31 por SPBarra

atenção: não é uma dica de filme! não é um filme que se recomende. Anticristo, último filme do dinamarquês Lars Von Trier, não tem nada de leve, nem de divertido. Mas trata do ser humano, o que me interessa, e o faz de maneira crua, dura, verdadeira, estética… brilhante. Extremamente controverso, o filme é um mergulho profundo na experiência de um casal em luto: toca nos nossos limites, nos faz pensar no impensável (talvez por isso tamanha reação negativa? tamanha controvérsia?). Em cinco minutos de filme, no prólogo, nos vemos diante de uma situação insustentável, impensável, impossível. Daí descemos abismo abaixo, tateando, no escuro, os limites da natureza humana: um verdadeiro duelo entre as forças da natureza, da sexualidade em sua expressão mais extrema com as frágeis possibilidades da nossa racionalidade. Ficamos pequenos, minúsculos, sem saber o que fazer ou pensar. é o reino do caos, como coloca o diretor. Não tem pra ninguém. Certamente não tem pra terapia cognitivo-comportamental, que vai por água abaixo, tão risivelmente impotente diante da dureza que testemunhamos, aflitos, no filme.

Interessante que o diretor, em entrevista no Festival de Cannes, nos conta que o fime foi o resultado de um longo e duro período de depressão e que ele não sabe bem porque o fez nem o que quis dizer com ele. Consciente ou não, acho que ele quis compartilhar com a gente um pouquinho de seu passeio pelas trevas e pelo horror. Quanta gentileza!

Enfim, não recomendo o filme. Acho que é pra quem tem certa afinidade com o demônio, gente esquisita, que certamente pecisa de terapia. Eu adorei.

Ah! pra quem quiser dar só uma espiadinha, sem compromisso (se é que é possível), os 6 primeiros minutos de filme - magistrais, em termos de cinema - estão no You Tube: é só digitar, na busca: “Antichrist prologo”. Pra quem se sentir em casa com o prólogo, recomendo assistir também no YouTube a entrevista com o diretor, onde ele fala da depressão e do filme (busca: Lars Von Trier interview). E se você gostou muito do assunto, recomendo também uma terapia. Mas cuidado com as TCCs…

Fernanda Aranha

Sobre a palestra: Psicanálise e Espiritualidade - Uma Integração Possível

28 de Outubro de 2009 @ 22:50 por SPBarra

Ontem tive o privilégio de participar de mais uma palestra excepcional que a Sociedade de Psicanálise da Barra vem promovendo desde a sua abertura. Como membro da Sociedade, em Formação Psicanalítica, me sinto muito feliz em poder compartilhar e integrar outras áreas de conhecimento e a Psicanálise sem preconceitos e com bom senso e ética na nossa prática clínica.
Alcio Braz, Psiquiatra e Psicanalista, chefe da saúde mental do Hospital da Lagoa, antropólogo e monge budista e Maria Lucia Pilla, Psicóloga e psicanalista, coordenadora geral da Sociedade de Psicanálise da Barra num ato de coragem e ousadia promoveram para uma platéia lotada na livraria da Travessa, um delicioso debate sobre a possibilidade de integração entre a Espiritualidade e a Psicanálise.
Espiritualidade, aqui, claramente distinta de religião instituida, dos dogmas que esta carrega, e sim como conhecimentos alcançados através de meditação e práticas que levam o indivíduo a um estado alterado de consciência.
Para Maria Lucia o conceito de Ego é um ponto em comum entre a Psicanálise e Espiritualidade. Segundo ela, para a Psicanálise o Ego como mediador entre o Id e o mundo externo, é obrigado a fazer concessões e ter ilusões, inclusive de poder, de onipotência. O processo de análise implica que o Ego abra mão das ilusões e se abra o máximo possível ao Incs.
Nas tradições espirituais, o Ego também precisa abrir mão de ser o “senhor” para ser um “instrumento” que possibilite o desenvolvimento espiritual do indivíduo.
Alcio concorda com Maria Lucia e acrescenta que no caso de um interesse pelo desenvolvimento das práticas espirituais, o indivíduo precisa ter um Ego bem estruturado, construído, que possa suportar uma certa “desconstrução”. Chega um momento, dentro dessas práticas que, segundo Alcio, as experiências vividas ultrapassam qualquer explicação, portanto, certamente haverá o sentimento de desamparo, e é fundamental que o Ego seja bastante saudável para suportar, aceitar e viver plenamente o que está acontecendo.
Para o Psiquiatra-Monge Budista, a grande questão que cerca a Psicanálise e o Budismo é a mesma: A Angustia. A auto análise de Freud e o “ Dharma - Caminho” de Buda, tem em comum a tentativa de dar sentido ao vazio de sentido.
Alcio diz que a pessoa , quando analisada, tem muito mais possibilidade de viver plenamente a espiritualidade. Ele define a experiência espiritual como uma possibilidade de encontro verdadeiro, viver o momento do “aqui e agora”. O aqui e agora é tudo o que está acontecendo no exato momento em que estamos e que pode ser captado pela nossa consciência. Ele pode ser externo e interno.
O discurso de Maria Lucia e Alcio se complementaram. Ela, por um lado, mostrou a importância da conexão espiritual no processo analítico. Em sua longa prática, unindo os dois saberes, a Psicanalista pode perceber que as pessoas que tem esse tipo de conexão lidam melhor com as dificuldades, se vitimizando menos, encarando-as como aprendizagem e uma forma de evoluir. Mais abertas ao próprio Inconsciente, normalmente elas fazem grandes evoluções em suas vidas.
Já Alcio, com o ponto de vista da contribuição da Psicanálise para o desenvolvimento espiritual, falou da importância de um Ego estruturado que suporte essas práticas, pois para o Budismo Zen, o Ego não é desprezado, pois para que haja o “despertar” e o sujeito usufrua dos encontros espirituais, tem que ter um Ego equilibrado.
Interessante a posição do Alcio quando diferencia os sintomas que chegam em nossas clínicas. Ele nomeia a “dor total”, “dor física” e “dor mental”. É sobre a “dor total”que falamos ontem. É o sujeito que chega com angustia existencial. Aquele momento em que a vida nos coloca diante de questões transcendentais. Com sabedoria Alcio coloca que se o analista for reduzir essas questões a sintomas, ele estaria empobrecendo o desenvolvimento de seu paciente.
Ficou em mim um gostinho de “quero mais”.

Renata Fiszman Pinheiro

Desejo e criação

19 de Agosto de 2008 @ 09:55 por SPBarra

O ser humano imagina, deseja e sonha. Assim vai construindo o mundo que o cerca. Foi a partir do desejo de um grupo de alunos e de sua ressonância em uma de suas professoras que surgiu a SPB – Sociedade de Psicanálise da Barra.

Como compartilhar sonhos torna as criações mais viáveis, a esse embrião se juntaram outros construtores de idéias e ideais.

A professora e psicanalista Maria Lucia Pilla buscou parceiros entre seus pares para pensar e viabilizar a construção de um núcleo psicanalítico na Barra. Era evidente a falta de um lugar onde os profissionais que aqui trabalham e residem pudessem trocar conhecimentos sobre as diversas formas de pensar os fenômenos que atingem o sujeito e seu espaço social. Um lugar de onde se possa refletir e acompanhar os avanços da ciência. Pensamos na situação daqueles que por razões de trabalho e outras questões pessoais apresentam grande dificuldade de se deslocarem em direção a outros pontos da cidade. Consideramos a densidade populacional, o grande número de instituições de ensino de terceiro grau que aqui se estabeleceram e concluímos que seria pertinente a criação de um espaço psicanalítico na Barra.
Estabelecemos como objetivo a criação de um instituto para formação psicanalítica, mas o espaço não se limitaria ao instituto de formação. Nossa idéia é também a construção de um lugar que beneficie os que trabalham com o ser humano. Um espaço onde profissionais e estudantes possam usufruir e aprofundar estudos diversos. Visamos a transdisciplinaridade.

Consciente da infinitude do conhecimento a SPB abraça uma política de atualização permanente, objetivo de todo cidadão responsável.

Foi assim que em agosto de 2007, para comemorar a abertura da SPB, tivemos uma mesa redonda sobre Violência e Exclusão, que aconteceu na Livraria Nobel. Em agosto também teve inicio a primeira turma de formação psicanalítica.
A SPB oferece cursos diversos visando o aprimoramento profissional e a cada semestre organiza mesas redondas que vêm acontecendo na Livraria Argumento da Barra.
A SPB funciona no Bloco 21 loja 143 no Downtown. Seus fundadores são os psicanalistas Maria Lucia Pilla, Maria Regina Domingues de Moraes, Elisabete Amado Reis, Sonia Resende Viana e José Francisco Gama e Silva, os psicólogos Mario Vieira Serra e Gabriela Mesquita Tomé e a médica Patrícia Andrade. Os três últimos, além de membros fundadores são alunos da primeira turma de formação.
O filósofo e poeta francês Gaston Bachelard acreditava ser o conhecimento científico fruto da interação entre o real (o objeto) e o sujeito e que essa interação se dá através de construções e reconstruções, buscando afinar as estruturas do pensamento.

Nós da SPB desejamos corajosamente caminhar construindo e reconstruindo nosso saber científico numa atitude de formação permanente.

Diretoria da SPB