Gostei muito do texto da Renata sobre a palestra Espiritualidade e Psicanálise e aproveito para acrescentar alguns comentários. O encontro na Travessa - promovido pela Sociedade de Psicanálise da Barra - de fato tocou em questões intrigantes, e as duas abordagens em pauta – a prática budista e a psicanálise - foram consideradas de forma brilhante, com o respeito e fascínio que merecem. Maria Lucia Pilla expôs uma visão corajosa e aberta da psicanálise, tocando em temas como os limites da nossa tão preciosa racionalidade, sobre o papel do analista e de todo o seu repertório de vivências e crenças pessoais na prática psicanalítica, sendo o instrumento central de trabalho do psicanalista a sua própria mente: consciente e inconsciente. Pilla compartilhou com a platéia suas experiências pessoais de tensão e integração entre a psicanálise e a espiritualidade, falou sobre religiosidade e sobre o importante papel do ego em nosso funcionamento psíquico: como interlocutor fundamental entre nossos desejos e as demandas externas, o ego nos traz também perigosas armadilhas, uma ilusão de poder e controle absoluto.
Foi um ‘encontro feliz’, pegando emprestada a expressão usada por Álcio Braz, onde uma experiência verdadeira de troca ocorreu: Álcio conduziu a platéia em um relaxamento, convocando-nos a tomar consciência de nossa respiração, nosso corpo, nossos pesos e contrapesos. Entramos assim em uma sintonia compartilhada, estávamos todos ali, presentes de corpo e alma naquele momento (como não é lá tão comum hoje em dia). Assim trocamos idéias, dúvidas e depoimentos. Tenho a impressão de que muito foi trocado nesse encontro. O tema era de interesse geral: como a Renata bem colocou, um elemento central que une a psicanálise, a espiritualidade e, acredito, todos da platéia, é a angústia, dor psíquica, ou a dor total (existencial) de que nos falou Álcio - espécie de dor abstrata tão familiar a todos os seres humanos. Ponto crucial aqui é o desamparo da condição humano, especialmente em tempos de ‘ilusões perdidas’: de um jeito ou de outro, devemos aprender a viver com nossa finitude, nossa dependência do outro, nossa limitação e impotência frente aos mistérios da vida. Como colocou Álcio, a vida humana é um estado constante de desajuste, e transitar nesse desequilíbrio não é tarefa das mais simples. Por isso estávamos ali, abertos para ouvir e falar, em primeira mão, sobre nossa condição humana. De forma humilde e verdadeira, a experiência espiritual foi abordada de maneira lúcida e clara: o grande milagre, falava Álcio, não é andar sobre a água, mas sim andar aqui no chão mesmo, sustentando o peso de existir, o próprio peso, vivendo cada instante da vida, admitindo a realidade, sem idealizações.
Foi um encontro pleno, longo e agradável. Pleno de idéias interessantes, de trocas pessoais, e pleno de gente também. Falou-se de religião e religiosidade, de efeito placebo, do papel dos remédios na psiquiatria, de milagres e experiências extra-sensoriais, da intuição, da empatia, da captação inconsciente. Inconsciente para Freud, para Jung, inconsciente coletivo. Falou-se muito, e a sensação que se tinha é de que participaram todos, falando e ouvindo, plenamente presentes naqueles preciosos instantes.
Fernanda Aranha