Sobre a palestra: Psicanálise e Espiritualidade - Uma Integração Possível

Ontem tive o privilégio de participar de mais uma palestra excepcional que a Sociedade de Psicanálise da Barra vem promovendo desde a sua abertura. Como membro da Sociedade, em Formação Psicanalítica, me sinto muito feliz em poder compartilhar e integrar outras áreas de conhecimento e a Psicanálise sem preconceitos e com bom senso e ética na nossa prática clínica.
Alcio Braz, Psiquiatra e Psicanalista, chefe da saúde mental do Hospital da Lagoa, antropólogo e monge budista e Maria Lucia Pilla, Psicóloga e psicanalista, coordenadora geral da Sociedade de Psicanálise da Barra num ato de coragem e ousadia promoveram para uma platéia lotada na livraria da Travessa, um delicioso debate sobre a possibilidade de integração entre a Espiritualidade e a Psicanálise.
Espiritualidade, aqui, claramente distinta de religião instituida, dos dogmas que esta carrega, e sim como conhecimentos alcançados através de meditação e práticas que levam o indivíduo a um estado alterado de consciência.
Para Maria Lucia o conceito de Ego é um ponto em comum entre a Psicanálise e Espiritualidade. Segundo ela, para a Psicanálise o Ego como mediador entre o Id e o mundo externo, é obrigado a fazer concessões e ter ilusões, inclusive de poder, de onipotência. O processo de análise implica que o Ego abra mão das ilusões e se abra o máximo possível ao Incs.
Nas tradições espirituais, o Ego também precisa abrir mão de ser o “senhor” para ser um “instrumento” que possibilite o desenvolvimento espiritual do indivíduo.
Alcio concorda com Maria Lucia e acrescenta que no caso de um interesse pelo desenvolvimento das práticas espirituais, o indivíduo precisa ter um Ego bem estruturado, construído, que possa suportar uma certa “desconstrução”. Chega um momento, dentro dessas práticas que, segundo Alcio, as experiências vividas ultrapassam qualquer explicação, portanto, certamente haverá o sentimento de desamparo, e é fundamental que o Ego seja bastante saudável para suportar, aceitar e viver plenamente o que está acontecendo.
Para o Psiquiatra-Monge Budista, a grande questão que cerca a Psicanálise e o Budismo é a mesma: A Angustia. A auto análise de Freud e o “ Dharma - Caminho” de Buda, tem em comum a tentativa de dar sentido ao vazio de sentido.
Alcio diz que a pessoa , quando analisada, tem muito mais possibilidade de viver plenamente a espiritualidade. Ele define a experiência espiritual como uma possibilidade de encontro verdadeiro, viver o momento do “aqui e agora”. O aqui e agora é tudo o que está acontecendo no exato momento em que estamos e que pode ser captado pela nossa consciência. Ele pode ser externo e interno.
O discurso de Maria Lucia e Alcio se complementaram. Ela, por um lado, mostrou a importância da conexão espiritual no processo analítico. Em sua longa prática, unindo os dois saberes, a Psicanalista pode perceber que as pessoas que tem esse tipo de conexão lidam melhor com as dificuldades, se vitimizando menos, encarando-as como aprendizagem e uma forma de evoluir. Mais abertas ao próprio Inconsciente, normalmente elas fazem grandes evoluções em suas vidas.
Já Alcio, com o ponto de vista da contribuição da Psicanálise para o desenvolvimento espiritual, falou da importância de um Ego estruturado que suporte essas práticas, pois para o Budismo Zen, o Ego não é desprezado, pois para que haja o “despertar” e o sujeito usufrua dos encontros espirituais, tem que ter um Ego equilibrado.
Interessante a posição do Alcio quando diferencia os sintomas que chegam em nossas clínicas. Ele nomeia a “dor total”, “dor física” e “dor mental”. É sobre a “dor total”que falamos ontem. É o sujeito que chega com angustia existencial. Aquele momento em que a vida nos coloca diante de questões transcendentais. Com sabedoria Alcio coloca que se o analista for reduzir essas questões a sintomas, ele estaria empobrecendo o desenvolvimento de seu paciente.
Ficou em mim um gostinho de “quero mais”.

Renata Fiszman Pinheiro

3 respostas para “ Sobre a palestra: Psicanálise e Espiritualidade - Uma Integração Possível ”

  1. Fernanda Aranha disse:

    Gostei muito do texto da Renata sobre a palestra Espiritualidade e Psicanálise e aproveito para acrescentar alguns comentários. O encontro na Travessa - promovido pela Sociedade de Psicanálise da Barra - de fato tocou em questões intrigantes, e as duas abordagens em pauta – a prática budista e a psicanálise - foram consideradas de forma brilhante, com o respeito e fascínio que merecem. Maria Lucia Pilla expôs uma visão corajosa e aberta da psicanálise, tocando em temas como os limites da nossa tão preciosa racionalidade, sobre o papel do analista e de todo o seu repertório de vivências e crenças pessoais na prática psicanalítica, sendo o instrumento central de trabalho do psicanalista a sua própria mente: consciente e inconsciente. Pilla compartilhou com a platéia suas experiências pessoais de tensão e integração entre a psicanálise e a espiritualidade, falou sobre religiosidade e sobre o importante papel do ego em nosso funcionamento psíquico: como interlocutor fundamental entre nossos desejos e as demandas externas, o ego nos traz também perigosas armadilhas, uma ilusão de poder e controle absoluto.

    Foi um ‘encontro feliz’, pegando emprestada a expressão usada por Álcio Braz, onde uma experiência verdadeira de troca ocorreu: Álcio conduziu a platéia em um relaxamento, convocando-nos a tomar consciência de nossa respiração, nosso corpo, nossos pesos e contrapesos. Entramos assim em uma sintonia compartilhada, estávamos todos ali, presentes de corpo e alma naquele momento (como não é lá tão comum hoje em dia). Assim trocamos idéias, dúvidas e depoimentos. Tenho a impressão de que muito foi trocado nesse encontro. O tema era de interesse geral: como a Renata bem colocou, um elemento central que une a psicanálise, a espiritualidade e, acredito, todos da platéia, é a angústia, dor psíquica, ou a dor total (existencial) de que nos falou Álcio - espécie de dor abstrata tão familiar a todos os seres humanos. Ponto crucial aqui é o desamparo da condição humano, especialmente em tempos de ‘ilusões perdidas’: de um jeito ou de outro, devemos aprender a viver com nossa finitude, nossa dependência do outro, nossa limitação e impotência frente aos mistérios da vida. Como colocou Álcio, a vida humana é um estado constante de desajuste, e transitar nesse desequilíbrio não é tarefa das mais simples. Por isso estávamos ali, abertos para ouvir e falar, em primeira mão, sobre nossa condição humana. De forma humilde e verdadeira, a experiência espiritual foi abordada de maneira lúcida e clara: o grande milagre, falava Álcio, não é andar sobre a água, mas sim andar aqui no chão mesmo, sustentando o peso de existir, o próprio peso, vivendo cada instante da vida, admitindo a realidade, sem idealizações.

    Foi um encontro pleno, longo e agradável. Pleno de idéias interessantes, de trocas pessoais, e pleno de gente também. Falou-se de religião e religiosidade, de efeito placebo, do papel dos remédios na psiquiatria, de milagres e experiências extra-sensoriais, da intuição, da empatia, da captação inconsciente. Inconsciente para Freud, para Jung, inconsciente coletivo. Falou-se muito, e a sensação que se tinha é de que participaram todos, falando e ouvindo, plenamente presentes naqueles preciosos instantes.

  2. Maria Lucia Pilla disse:

    Renata
    Vovê conseguiu fazer um resumo brilhante da palestra. Obrigado.
    Espero que êle provoque novos comentários. O da Fernanda já veio.
    Estamos pensando em fazer em 2010 um Encontro - Psicanálise e Espiritualidade 2 - retomando as questôes que ficaram no ar…O que vocês acham? Consultem a turma.

    M. Lucia

  3. SPBarra disse:

    M. Lucia acho uma ótima idéia….esse tema trás muitas questões para a gente pensar.
    beijos
    Renata

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